Realização Senac Santa Catarina e Fecomércio SC com apoio Santur.

Existe esperança, mas a temporada não alcançou as expectativas

Por Tiago Savi Mondo, PhD. Professor de Turismo do Instituto Federal de Santa Catarina

Para o Observatório de Turismo da Fecomercio Santa Catarina

O fenômeno turístico pode ser analisado de diversos prismas e perspectivas. Desde as relações psicológicas e sociais entre moradores e turistas, até o impacto na balança comercial nacional de países turísticos. Antropólogos, psicólogos, matemáticos, geógrafos, biólogos e tantos outros utilizam-se do fenômeno turístico para análises e inferências, cada qual com suas crenças e métodos.

O turismo visto a partir de uma perspectiva econômica mercadológica tende a caracterizar o entendimento do fenômeno como um setor econômico. Um setor que gera desenvolvimento para as nações, estados e municípios que recebem pessoas de outros locais para usufruírem de sua estrutura básica e turística e ali impactarem.

Os impactos do turismo podem ser positivos e negativos. Esta análise busca vislumbrar e analisar os impactos econômicos mercadológicos que a atividade turística desempenhou no Estado de Santa Catarina durante a temporada de verão 2018/2019.

Carregado pelo Turismo Sol e Mar, Santa Catarina se destaca nos meses de verão por receber um número elevado de turistas. Tentaremos aqui traçar um panorama da atividade na temporada 2018/2019, apontando os desafios que se postam para os próximos anos.

A temporada começou otimista, como de costume. A SANTUR esperava um incremento no número de turistas em 5%, Florianópolis fez uma louvável e ótima parceria com a Decolar, voos charters haviam sido agendados, o Fórum Econômico Mundial acabara de manter o Brasil como o primeiro destino mundial em atrativos naturais (nossa especialidade), a Clia Brasil confirmara um aumento de 15% nos atraques de navios, confirmando 27 escalas em Balneário Camboriú, e chilenos comprando antecipadamente em peso. O mês de dezembro foi bom para Hotéis, Restaurantes e para o turismo em geral. O Sindicado de Hotéis, ABIH e ABRASEL estavam relativamente otimistas.

Obviamente, todos tínhamos noção da crise econômica argentina e na forte influência cambial no turismo, além ainda da instabilidade que pairava a economia brasileira, apesar da reconhecida melhoria. A temporada efetivamente chegou e começamos a sofrer um pouco mais. A Polícia Federal confirmou uma queda de mais de 70% no número de carro argentinos entre 1º e 10 de Janeiro (principal meio de transporte do principal segmente internacional). Balneário registrou os mesmos 70% de queda de 1º a 8 de janeiro. Janeiro e fevereiro mantiveram a média negativa do início do ano e desaqueceram a economia turística do Estado.

Março chegou e alegrou o empresariado entristecido. O Carnaval tardio ajudou e, mesmo assim, fechou no negativo. A ocupação dos hotéis no Carnaval foi de 74,72%, contra 81,64% no mesmo período de 2018 (SHBRS).

Os preços, seguindo uma lógica econômica quando da queda de demanda reduziram-se. Restaurantes, hotéis, casas de aluguel e todos os outros serviços e produtos turísticos tiveram quedas para tentar minimizar o impacto negativo da falta de demanda potencial.

Demanda potencial existia, pois tinham turistas no Estado, vide o aumento de 21,31% na semana da virada de ano em Piratuba ou o excelente número de brasileiros que estavam em território catarinense. Entretanto o perfil de consumo mudou. Em situações onde a restrição orçamentária é grande, o comportamento da demanda é gastar seu dinheiro escasso em um produto central (transporte ou hospedagem ou alimentação). Os produtos complementares (passeios, compras, etc.) muitas vezes menos importantes para o segmento deixam de ser consumidos.

Problemas estruturais atrapalharam o turismo na temporada também. Mobilidade urbana nos principais destinos do Estado, balneabilidade, presença excessiva de ambulantes e aluguéis irregulares foram as principais queixas do empresariado. A ABRASEL levantou com seus associados que houve redução do gasto médio do turista para 88% dos respondentes da pesquisa e a temporada foi pior ou igual que 2018 para 74% dos empresários do setor.

A pesquisa da Fecomercio-SC sobre o perfil do turista que nos visitou explicita um dado preocupante. Ano após ano, a representatividade dos turistas com faixa de renda menor tem aumentado, chegando a 69,1% de turistas tendo uma renda média mensal familiar de até R$ 7,568,00. Em 2015 esse número foi de 61,1%. A média de 2013 até 2019 é de 65,97%.

A Origem dos turistas seguiu o padrão de todos os outros anos da pesquisa. 71,6% brasileiros e 28,4% estrangeiros. Demonstrando que existe uma normalidade nos dados ano após ano. Demonstra também que as estratégias de comunicação para diversificação da demanda não estão funcionando. Ampliar mercados geograficamente, buscando novas formas de chegada destes turistas (o que Florianópolis está fazendo com Lisboa por exemplo) tornam-se estratégias interessantes para o melhor desenvolvimento do turismo no Estado. Por que não um Hub no Panamá para atrair mercado norte americano e outros hubs europeus para atração de mercados asiáticos e do oriente médio?

Com relação ao meio de transporte utilizado, destaca-se a queda da utilização de veículos próprios e o aumento da utilização do avião e do ônibus, tanto fretados como regulares. Tal fato demonstra que as estratégias de melhoria dos aeroportos catarinenses têm dado certo, como a privatização da operação do aeroporto Hercílio Luz em Florianópolis. Espera-se que a próxima rodada de concessão do Governo Federal, prevista para 2020, mantenha o Aeroporto de Navegantes no pacote das privatizações.

Um dado muito importante, inclusive para as estratégias de internacionalização do destino, é o gasto médio do turista nacional e do turista internacional. Mesmo com a Argentina em crise, a média de gasto do turista internacional no Estado na temporada foi 2,4 vezes maior que a média de gasto do turista nacional, sendo a hospedagem o produto central do turismo catarinense ainda.

Santa Catarina é um estado plural. Possui diversas potencialidades em diversos segmentos. Atrativos não faltam, pessoal capacitado não falta, empresariado capacitado não falta. Temos uma excelente oportunidade no ano de 2019 ao revisarmos o Plano Catarina de Marketing Turístico do Estado. Além disso, é necessária a elaboração do Plano de Desenvolvimento Turístico e o fortalecimento real das 12 regiões turísticas, fomentando o desenvolvimento de projetos locais/regionais. É necessário também o real funcionamento do Observatório de Turismo de Santa Catarina, gerando, compilando e analisando dados de mercado para potencializar a tomada de decisões de gestores públicos e privados.

Temos que inovar, utilizar a economia criativa para desenvolver novos produtos turísticos, tornar os variados e potenciais atrativos que temos em possibilidades de consumo.

O desafio está lançado e temos certeza que somos capazes de melhorar cada vez mais o turismo de nosso Estado.

Este boletim foi elaborado a partir das pesquisas e
entrevistas concedidas pelo Trade durante a temporada.

Obs.: Entidades como Fecomércio-SC, Abrasel-SC, SHRBS, ABIH-SC, FCVB-SC, C&VB Regionais e Municipais e outras entidades devem ser parabenizadas pelo esforço em levantar, divulgar e analisar os dados turísticos do Estado.